Recruta 342

O primeiro “recruta”

Esta é uma história de uma paixão com contornos de obsessão! Como é óbvio não vou começar este diário por contar o começo da minha vida (pormenores serão dados ao longo do relato para efeitos ilustrativos), para não parecer uma autobiografia, nomes e identidades serão preservadas e começará em certo ponto da minha vida (sensivelmente 6 meses)!!!

Dia 3 de junho de 2022, tinha oficialmente acabado de terminar o curso de Técnico de Contabilidade, e a necessidade encontrar emprego era urgente, devido ao facto de naturalmente precisar de um meio de subsistência e o apoio estatal ter prazo de duração. Desejava ter um emprego que fosse perto do meu lar, para não depender de boleias (que até certo ponto aborrecem, quem à partida mostra boa vontade de dar), acordar muito cedo ou até trabalhar no turno da noite (algo que desgasta a mente e o corpo, acabando por não compensar o ordenado auferido no final do mês).

Acabei por aceitar por trabalhar na empresa mais odiada da minha região, mas que ao mesmo tempo uma empresa que dá emprego a centenas de pessoas, embora que em contratos precários!! Estava com sobrepeso, a recuperar de uma entorse no pé (devido a um acidente ocorrido durante a época do recém acabado, estágio profissional, do curso de Contabilidade), não trabalhava à pouco mais de um ano, em suma foi um período doloroso de adaptação.

Não passei do período experimental (2 semanas) o que em parte foi um alívio, mas por outro lado deixou-me ansioso e deprimido durante mais 2 semanas!! Até que finalmente, consegui o tão desejado emprego perto de minha casa (10 minutos de distância a caminhar), graças a muita fé em Deus (sim, acredito em Deus), e por ter feito também a minha parte de uma procura ativa e específica de emprego da empresa em questão!! É aqui que começa a história que me levou á escrita deste relato e o porquê do título em questão.

Respondo ao anúncio de emprego para empregado de armazém (trabalho com o qual me identifico bastante, por ser um trabalho que envolve esforço e movimentação além do contacto com pessoas), o qual para a minha surpresa, tenho resposta ao meu e-mail de candidatura ao trabalho pretendido, mas um balde de água fria foi jogado para cima, por ser questionado se tinha licença para conduzir empilhadores. A minha resposta foi a mais honesta possível, ao replicar ao e-mail recebido, por dizer que tinha tirado no ano de 2006, que tinha pouca prática, mas que por muitos anos não tinha a prática e a experiência necessária em manobrar tal equipamento. Pensei: “Adeus oportunidade tão desejada de trabalhar ao pé da porta” e “E para onde irei trabalhar se não tenho veículo próprio?” além de “O que será de mim e dos meus pais?”

Por momentos convenci-me de que iria continuar do apoio do estado, até ao término, esperando encontrar algo compatível com a minha condição de locomoção!! Mas mais uma vez fui surpreendido pela resposta positiva da marcação da entrevista de emprego, com um e-mail com vários e possíveis horários, para entrevista de emprego!! A resposta foi imediata, mostrando disponibilidade para todos os horários possíveis. A marcação foi feita e o dia chegou.

A expectativa era alta, esperei até que apareceu ela, o motivo desta escrita, a chamar pelo meu nome. Por motivos de preservação de identidade, chamá-la-ei de “A”. À primeira vista parecia uma mulher dos seus quarenta e tal anos, mas com uma vista mais “rigorosa” vi que estava na casa dos trinta. Não dá para negar que é uma mulher atraente, vistosa, olhar verde cor de mel intenso e com (o devido respeito) um corpo, embora estreito, escultural e pele morena pura seda. Vestia uma camisa de manga curta azul-marinho e uma saia curta (embora larga) amarela que revelava umas pernas torneadas, bronzeadas pelo sol (e talvez também por solário).

Na subida para o piso de cima onde iria decorrer a entrevista, por respeito à minha crença, e consequentemente por ela, evitei olhar por baixo da saia, olhando através de uma janela que visualizava o exterior da empresa, mas algo inusitado (e motivo de riso até ao dia desta escrita) aconteceu: por ela ir à minha frente e eu estar alguns degraus abaixo, ela para e olha para trás com um ar atrapalhado (algo que me fascina nela) e desconfiado que estivesse a espreita por debaixo da saia. Fixei o meu olhar na cara dela em sinal de que não a estaria a desrespeitar (embora tivesse o desejo contrário à minha ação). A subida continuou, e o meu olhar fixava-se na parte posterior de coxa (ou parte de trás da coxa), só no topo das escadas fixei o olhar para o chão para disfarçar o que tinha acabado de fazer e mostrar que estava lá para a respeitar.

A interação começou com a tentativa da parte dela, em ligar o ar condicionado (pois era verão e fazia um calor intenso), tentei ligá-lo também, mas sem sucesso, chegando ao ponto de ela ter de se dirigir a outra divisão daquela área administrativa, para entender o funcionamento do comando do ar condicionado! Ela volta para a divisão onde se realizaria a entrevista, liga então o ar condicionado, deixando a porta aberta dando assim a minha oportunidade de mostrar o meu conhecimento adquirido no curso de técnico de refrigeração e climatização, explicando a importância de manter a porta fechada, para tornar mais efetivo do funcionamento do mesmo, tanto para refrigerar a divisão como para poupança energética!!

Enfim a tão esperada (e temida) entrevista de emprego começou começando com perguntas básicas como: nome, idade (data de nascimento), estado civil, experiência profissional anterior, entre outras coisas. Esta entrevista teve uns contornos estranhos e cómicos ao mesmo tempo. Por exemplo, após a pergunta se era casado ou solteiro, surge a pergunta se namorava (???), à qual respondi negativamente com um não seguido com um: “e sem preocupações”, acompanhado com um ar irónico, o que provoca não uma gargalhada, mas um sorriso de surpresa (que com toda a certeza a apanhou desprevenida), mas em contrapartida demonstrou autoestima da minha parte, mesmo estando bastante obeso e sem esposa/namorada. A entrevista de emprego prosseguiu, com as rotineiras perguntas para conhecimento de perfil profissional, mas uma coisa era inevitável, o meu olhar pelas pernas delas, que por algum motivo surgiam na minha linha de visão. Ela tentava ligar para o que chegou a ser meu chefe (e diretor fabril), mas por algum motivo que eu desconheço ele não esteve disponível, o que deu oportunidade de surgir uma situação inusitada: conhecê-la melhor no campo pessoal (embora ela desse algumas dicas da sua vida profissional pregressa para me fazer abrir mais). Notei que ela tem uma cicatriz enorme no antebraço, o que me fez questioná-la sobre o que tinha acontecido, ao qual ela me responde que tinha tido um acidente de carro a caminho do trabalho e partira o braço, com o mau bónus de ter ferido o olho direito, “obrigando-a” a usar uma lente progressiva para o conforto do referido olho. A demora do que chegou a ser meu chefe (posteriormente demitiu-se) deu-me a oportunidade de lhe “roubar” outro leve sorriso. Ela ao referir-se, mais uma vez, à demora do que chegou a ser meu chefe, deu-me a oportunidade de soltar mais uma “pérola”, dizendo algo do género: pela demora dele, vocês têm de me compensar por me dar a vaga de trabalho.

 Pela impossibilidade da presença de quem me faria a entrevista definitiva, ficou combinada a minha presença no dia seguinte. Pelo ambiente estar a ficar constrangedor, eu a querer puxar assunto banal para o ambiente não ficar desconfortável e o facto de ela estar ao telemóvel (talvez nas redes sociais) e as respostas estarem-se a tornar monossilábicas, foi a melhor decisão que poderia ter-se tomado naquele momento. Ao chegar a casa e após o acesso ao meu e-mail, noto que tinha uma mensagem da parte dela, a questionar a minha disponibilidade em voltar a ter uma entrevista no dia seguinte no horário mencionado por ela, ao qual eu respondo positivamente.

Às 9h30m do dia seguinte, estava eu de novo na referida empresa para ser entrevistado pelo que seria o meu chefe (e curiosamente o diretor fabril). Sou recepcionado outra vez pela “A”, mas desta vez ela vestida totalmente de amarelo (um macacão canelado feminino), roupa justa que revelava a silhueta (as famosas curvas). Na subida para o mesmo local não me inibi em apreciar (sem moderação), um corpo bem trabalhado que ajudava a revelar o relevo da roupa interior. No topo da escadaria sou convidado a me sentar, numa das cadeiras que faziam par com as mesas presentes naquela divisão, enquanto ela entra na mesma sala onde me fez a entrevista de emprego. Fechou-se na sala, pensei para mim mesmo: “Bem, tem outro a ser entrevistado!”.

Naquele momento senti um misto de ciúmes (por supostamente estar fechada com outro rapaz/homem), e preocupação por achar haver concorrência dentro daquela divisão. De repente a porta abre-se e ela chama-me, eu penso o seguinte: “uma entrevista a par de um concorrente?”, mas não, estava lá dentro o que viria ser o meu chefe (que alívio). Lá dentro foi uma entrevista rápida, mas deu para reparar melhor na “A”. Confesso que reparei melhor nela, mas o que me chamou à atenção foi a cara dela, pois parecia estar esfolada devido a insolação própria de verão, mas viria a descobrir mais tarde que é um problema de pele da face dela, em que ela disfarça com o uso “abusivo” de maquilhagem para encobrir o que provoca complexo nela! Eu achei sexy (estranho, eu sei). Sejam sardas, pele esfolada (na minha ótica) dá um charme adicional às mulheres, e nela especialmente a “tornava adolescente”.

Dois dias se passaram, recebo o telefonema dela para me notificar que fora selecionado. Acima de tudo dei louvor a Deus, por ouvir as minhas preces, nem acreditava que iria trabalhar ao lado de casa (com a possibilidade de almoçar em casa), no horário normal, estava nas nuvens. Trocamos E-mails para acertar os pormenores da minha entrada, como dados pessoais (para o preenchimento do relatório único), medidas dos fardamentos (equipamentos de proteção individual, como calças, t-shirts, calçado, etc). 

O dia finalmente chegou, depois de uma noite mal dormida lá vou eu para a empresa, para o meu dia de trabalho. Espero na mesma sala de recepção “do costume”, e enquanto a hora não chegava, observo a chegada dos colaboradores da referida empresa, ao qual correspondem com espanto à minha presença (reação natural em qualquer empresa com a entrada de novos colaboradores)! Mas a melhor parte da minha recepção foi a correria da “A” à portaria, para confirmar a minha chegada, já que a minha chegada, provavelmente não teria sido anunciada pela vigilante.

Sou encaminhado (de novo) ao piso da entrevista, e que a caminho para lá pergunto o nome da “A”, ao qual ela responde. Mas o meu objetivo não era saber o primeiro nome (o qual já sabia), mas sim o sobrenome, para a poder encontrar nas redes sociais para assim descobrir algo a mais sobre ela, o que ela só me dá o primeiro nome, para a minha decepção. O acolhimento começa, com a habitual apresentação da empresa, o horário de funcionamento, regras, regulamentos, política de qualidade, etc. 

Finalmente chega o grande momento, o momento de conhecer a nave fabril, as suas secções e os meus colegas de trabalho! Descemos da divisão onde decorria o acolhimento e demos a volta pelo exterior da empresa, mas na mesma sala de espera estava um candidato a emprego (não sei em qual vaga), onde a “A”, repassa um formulário de candidatura e pede para aguardar. Naquele momento não sei pelo que mais temi: se ela se interessasse por ele ou que ele fosse meu colega de armazém. A “visita guiada” começou! Mas a caminho para o interior da fábrica, não deixei de reparar na nuca da “A” o que por momentos me fez perceber da fragilidade física feminina e da delicadeza daquela mulher em particular! Chegamos na área social, que engloba o refeitório, balneários e a área de jogos (que no momento estava desativado na época devido ao surto da Covid-19). Descemos até meio da escadaria, onde a colega da “A”, apresenta a produção dos componentes metálicos que posteriormente vão dar origem a máquinas de testagem elétricos, bem como periféricos e módulos de testagem. Confesso que com o ruído das máquinas e com os olhares curiosos do pessoal produtivo, fiz de conta que percebi a mensagem que estava a ser repassada!

Sou encaminhado ao balneário onde são me dados 5 minutos para me equipar, ao qual correspondo ao pedido. De seguida a visita continua, até finalmente ser encaminhado ao meu posto de trabalho. Naquele dia de manhã, confesso que não se passou nada de relevante, a não ser os olhares curiosos de quem já lá trabalhava. De tarde, sou solicitado para transportar umas estantes para o que por breves semanas seria a extensão do armazém, mas no processo, a “A” ao passar por mim lançando um sorriso equivalente a um pai ou mãe dá a um filho menor, ao vê-lo a brincar com os coleguinhas.  Admito que me senti desconfortável, porque não eram sentimentos maternais que queria despertar na “A”, mas sim de uma mulher apaixonada (embora ainda não o soubesse), mas nada podia fazer naquela altura do “campeonato”.

No segundo dia de trabalho, já almoço na empresa, e no fim do mesmo faço uma visita pelas redes sociais, e “do nada” aparece-me ao meu lado a “A”, discretamente viro o ecrã do meu telefone (para preservar a minha privacidade), onde da primeira de muitas mesmas perguntas se eu estava a gostar de trabalhar naquela empresa. Voltando atrás no dia da entrevista, ela fala que gostava de trabalhar com o contacto com pessoas, entendendo assim o zelo da parte dela, mas por outro lado era muito precoce aquele tipo de pergunta. Senti-me mal não por mim, mas como aquilo poderia repercutir na reputação dela. Uma mulher atraente, muito próxima do “recruta” número um, dela, naquela empresa. Aproveitei e pedi mais uma t-shirt, porque apenas recebera uma em pleno verão (não, não leram errado, o que me deixou com o sentimento de negligenciado até hoje), sendo eu uma pessoa que liberta bastante suor (faça frio ou faça calor). O pedido foi atendido, mas fiquei com a consciência pesada de não ter perguntado como ela estava, e ter-me focado no fardamento. 

 Os dias foram passando, via-a no refeitório pensando que ela iria almoçar fora ou no gabinete dela, porque só a via a se dirigir à máquina do café, mas certo dia consegui vê-la a tomar a refeição dela, percebendo que ela almoçava na empresa. Até que em certo dia, compenetrado no meu trabalho, ela dá um toque no vidro para chamar a minha atenção, rapidamente olho e lá estava ela com o sinal manual de ok (ou boleia), eu obviamente retribuo. Mas confesso que sinto que ela me tenha cumprimentado por ser o primeiro recrutamento dela, naquela empresa, e por parte sentir pena de mim. Aquela ação por parte dela fez-me sentir um misto de emoções: desconforto (por parecer transmitir uma imagem de um pobre coitado), e alegria (por ela se lembrar de mim).

A partir deste momento, eventos eventualmente, poderão não estar em ordem cronológica, devido ao facto que foram 6 meses de pura intensidade.

O horário praticado por 80% da empresa era das 8h00 da manhã até às 18h15m da tarde, de segunda à quinta, e todas as sextas-feiras o horário era das 8h00m até às 13h15m, e certa quarta-feira, saio eu para o meu compromisso habitual de todas as quartas-feiras, e na marcação do ponto (porque tínhamos a marcação de ponto em comum), cruzamo-nos e ela faz a pergunta recorrente: “Está tudo bem contigo? Estás a gostar de trabalhar aqui?”, eu com um ar abatido e de cansaço (devido à natureza da dureza do posto de trabalho), respondo que sim e retribuo com a mesma pergunta, mas com um tom pouco convicto, onde aproveito e respondo o seguinte: “Não me convenceste!”, onde ela retribui com a seguinte resposta: “Tu também não!”. Ela diz que estava de momento ocupada com recrutamento e seleção, e ela reforça a aparente preocupação comigo em perguntar se estava tudo a correr bem, ao qual confesso que me sentia frustrado em não saber mais da minha função e por não manobrar o empilhador. Ela conforta-me ao dizer que naquela fase era normal eu ainda estar limitado quanto ao conhecimento da minha função. Confesso que no intimo dei-lhe razão e senti-me acarinhado por ela, mas sempre mantendo a minha postura, de uma pessoa que não se “derreteu” com aquela aparente preocupação com o meu progresso profissional e pessoal dentro daquela empresa. Aquele momento serviu de encorajamento mútuo. Mas duas coisas estavam-me a preocupar naquele momento: o tempo a passar (por causa do meu compromisso), e os olhares curiosos dos meus colegas de profissão, não que eu estivesse envergonhado (antes pelo contrário), mas pela reputação dela, embora não estivéssemos escondidos ou a fazer caricias um ao outro, mas que falassem mal dela.

 Por vezes passava por mim, sem me cumprimentar, ou retribuir a um “bom dia”, o que naqueles momentos deixava-me perplexo e confuso. Por vezes mostrava preocupação e em outros momentos “não me conhecia”! “Como assim?”, pensava eu desiludido. Por vezes a retribuição do “favor” não tardava, eu passando por ela sem a cumprimentar e sem olhar para a cara dela. Mas sem ganhar ou guardar mágoa daquela mulher.

 A partir deste ponto irei dividir o relato em 4 atos, para situar melhor o relato no tempo e no espaço sem confusão para possíveis leitores!!

ATO I

Naquela empresa (como cada vez mais na maioria das empresas), opta-se por não fechar para férias para atender à demanda dos clientes, e assim dar 12 dias (úteis) seguidos para que os colaboradores assim tenham o esperado, e merecido descanso anual!! A equipa do armazém era (porque no momento da escrita deste relato já não trabalhe lá (com pena minha), embora tenha começado o relato a 10 dias do fim do meu contrato não renovado pela empresa), constituída por duas colegas do sexo feminino e eu, mas em espera de mais um reforço do sexo masculino que só chegou no princípio de setembro do ano de 2022!!

 A mais velha com 51, a responsável do armazém e a mais nova com 31 anos. À mais velha chamarei de “Ros” e à mais nova de “Rosar”, visto terem o seu protagonismo nos seus respetivos atos do relato. 

Finais de julho era a vez da “Ros” ir gozar as suas merecidas férias e, entretanto, eu iria trabalhar a par da “Rosar”, na promessa e na expectativa de chegar um reforço para o armazém, visto que a dureza da função assim o exigiria!!

Estava eu sozinho, no armazém de expedição a fazer um trabalho de separação de material, quando a “A”, aparece juntamente com uma colega nova, para a função de ajudante de contabilidade (mas na minha mente e pensando eu, seria o novo elemento que iria reforçar a equipa do armazém), mas sem me citar o nome dela e qual função iria cumprir, mais uma vez (e até acertar com o meu nome) chama-me pelo nome errado (achava piada a tal situação, pelo jeito atrapalhado dela e o carinho com que ela se dirigia a mim), ao qual  já me identificava, por perceber que tão cedo não iriam acertar com o meu nome, e olhando, fui apresentado à nova colega!! Foi uma situação rápida mas deu para pelo menos vê-la e ouvi-la. 

 Agora, e tocando num assunto polémico a “A” é uma mulher que por ter um corpo trabalhado, pele pura seda e uma imagem cuidada, gosta de mostrar as pernas (e nem tanto o decote), o que me deixa bastante perturbado (embora também goste de ver), ver outros homens (e até mulheres, acreditem!!) a babar-se por ela, e o que leva as pessoas a comentar o que fariam com ela se assim tivessem oportunidade, e por acréscimo tentam a aproximação. No meu ponto de vista (e não só por gostar dela), e embora me possam taxar de machista (taxista, eletricista, etc), uma empresa não deve ser palco para uma mulher exibir as curvas daquela maneira, e muito menos uma responsável pelo departamento de Recursos Humanos, visto que para aceder ao refeitório tem de se subir escadarias, quase a pique!! Embora pareça uma mulher que saiba impor limites penso que não sejam trajes para se apresentar dentro de uma empresa e parecer que está em um evento social ou numa festa de verão, em plena praia. Na minha visão, só denota o seguinte: ela ter uma baixa autoestima (por diversos fatores) e mostrar o corpo ser uma forma de auto-afirmação, o que por consequência levanta a autoestima dela e uma consequente busca por validação por parte das outras pessoas!! Reparo que além dos olhares (e desejo) masculino levanta críticas e inveja por parte da ala feminina da referida empresa (por motivos óbvios)!

Cruzávamo-nos, de modo rápido e com um olá da parte dela, mas inexplicavelmente eu não conseguia ter um à-vontade com a presença dela! A hora do intervalo, era um momento de “terror” para mim, simplesmente não tinha coragem, de passar por ela. Mal dava o toque de saída lá ia eu com o máximo de velocidade, para regressar a tempo de não me cruzar com ela (mas ao mesmo tempo com vontade de a ver). Na hora do almoço fazia-me de cego (mas ao mesmo tempo a queria ver), porque a presença dela mexia imensamente comigo.

Certo dia, mais um novo colaborador, aumenta o efetivo da empresa, desta vez para o gabinete técnico. Naquele dia, ela vinha de saia curta, e um blazer, não a vi em condições, mas ouvi de um (ex) colega meu o seguinte comentário: “A dos Recursos humanos está cheia de calor”, e da “Rosar”: “A “A” tem uma saia.” Confesso que esses comentários mexeram comigo, deixando-me com vontade de defender a honra da “A”, mas tive de me resignar ao silêncio, para não denunciar o que sentia e ainda não sabia! Também os ciúmes tomaram conta de mim, por ela ter recepcionado alguém naqueles “trajes”, pensei por momentos: “Será que ela se vestiu assim para lhe agradar?” ou “Será que ele conseguiu ver a roupa interior?”, nunca saberei a resposta.

 Dias passaram, o calor apertava, e para não variar, ficava encharcado de suor, o que me deixava desconfortável. Mas num dia de intervalo comento com a “Rosar” que me estava a sentir desconfortável e com frio (em pleno verão e calor abrasador), o que a leva a sugerir a ligar para a “A” e pedir mais t-shirts, já que ela tinha um “cem” número de t-shirts em casa, e que uma anterior técnica dos Recursos Humanos, deu a um (ex) colega meu imensas t-shirts, porque sofria do mesmo mal do que eu: suar bastante. Mas eu prontamente neguei pedir mais t-shirts, porque não queria que a “A” pensasse que só me queria dirigir a ela, apenas para pedir coisas, e nunca me preocupava com ela. A “Rosar” prontifica-se a ligar a ela, pedindo mais t-shirts para mim. Ao desligar o telefone, reclama chamando a “A” de mal encarada, por ela dizer (e de modo ríspido) que não sabia se poderia dar mais t-shirts. Ao ouvir da boca da minha (ex) colega o conteúdo da conversa, tive a sensação de que a “A”, desprezava a minha existência, que todo o carinho que mostrou por mim, era só fachada profissional. Escusado será mencionar, que naquele momento fiquei magoado, e decidido em deixar de falar com ela (embora pouco convívio existia entre nós). Dois dias depois (sim, leram bem!) aparece ela no armazém com as t-shirts em punho e uma garrafa de metal (com o logótipo da empresa), entregando-me em mãos e com uma aparente alegria em me ver, perguntando se queria também outro par de calças, o que prontamente disse que sim! Ela garantiu que iria, assim que pudesse, ao armazém de novo para me entregar as calças. Confesso que nem sei bem porque motivo fiquei mais feliz: se com a presença dela ou com as t-shirts. No mesmo dia precisei deslocar-me aos recursos humanos para verificar se existia etiquetas colantes! Como de praxe liguei e da parte da “A”, notei que a minha presença era bem-vinda, notando isso com a rapidez e emoção com que ela disse: “vem”. Não demorei muito a deslocar-me, chegando lá, e notar aquela mulher de saia deixou-me sem palavras e reação. Ela ao abrir a porta pede-me (com um tom um bocado brusco), para segurar a porta, para assim puder atender-me, sem me deixar no lado de fora com a porta fechada. Só não o tinha feito porque (1) sempre foi ensinado a não entrar em lado nenhum sem convite e/ou permissão, (2) pensei que ela já teria as ditas etiquetas em mão. Segurei a dita porta, e vejo ela de cócoras e a saia a levantar a meio das coxas, o meu corpo teve um arrepio de nervos involuntário ao ver aquelas pernas torneadas, bronzeadas e brilhantes. Ela dá um pequeno desequilíbrio o que deu para ver um pouco mais da perna esquerda e um pouco do que parecia umas cuecas pretas, mas poderia ser uns calções curtos ou até boxers femininos. Como de costume mantive a postura! Sou convidado a entrar naquele espaço confinado para verificar com os meus próprios olhos, se haveria as ditas etiquetas. Entro e verifico que não havia as ditas etiquetas, mas em compensação recebo as prometidas calças. Ao mesmo tempo que recebo as calças a “A”, em tom baixo fala “toma lá as calças”, parecia alguém a falar ao ouvido! Aquele tom de voz enlouqueceu-me.  De repente, aparece a colega de trabalho, a qual improviso com um comprimento sincero e alegre, mas constrangido por ter ela ter aparecido de surpresa.

 Outra situação mexeu com os meus sentimentos, o exame médico, como assim? Eu explico. Por lei existe a obrigatoriedade de se realizar exames médicos nos primeiros 15 dias, após a contratação. O que aconteceu, mas segundo dizem as más-línguas, aquela empresa em questão não é rigorosa nesse quesito, mas o meu exame foi realizado dentro do prazo estipulado (coincidência ou não, nunca saberei). A minha presença foi requerida aos recursos humanos para assinalar a minha presença para o referido exame, pela “A” em pessoa, ao qual sou recepcionado por ela com uma máscara em mãos (devido às regras de prevenção, em relação a covid-19, em locais relacionados à saúde), para o exame. Ao falar para mim, veio um “aroma” a bolachas com pepitas de chocolate (provavelmente), da boca dela, ao falar comigo. Pena não me ter lembrado, de lhe lembrar para ter cuidado com os triglicerídeos (algo referido por ela no dia da entrevista, onde ela ter dito que apesar de ser magra, tinha os triglicerídeos altos), mas infelizmente não foi lembrado (com muita pena minha (risos))!! O exame corre dentro da normalidade, e voltando à receção dos recursos humanos, vou ter com ela para notificá-la que poderia vir o próximo, e olhando para os belos olhos dela, digo: “Continuação”, mas na verdade queria tornar aquele momento eterno, e sentir o sabor da boca dela na minha, mas esse momento apenas ficou na minha imaginação!!

Quase um mês de trabalho decorria e eu, mais uma vez fui abordado pela “A”, sendo questionado por ela, se iria ao intervalo às 10h00 da manhã (isto numa sexta-feira), ao qual eu respondo positivamente, e a qual ela disse para ir ter com ela no fim do intervalo que finalmente iria assinar o contrato de trabalho. O fim do intervalo chegou, e vejo-a passar, mas não a abordo para testar a reação dela, se me iria chamar ou se eu teria de tomar a iniciativa. A impaciência tomava conta de mim, e ao contrário do que a “Rosar” aconselhava, liguei para ela a fingir esquecimento, ao qual ela responde que assim estivesse disponível, requereria a minha presença. Naquele momento, passaram-me mil e uma coisas pela minha mente. Que ela estaria ocupada com uma entrevista de emprego, ou que fizera aquilo para me “punir” pelo meu “esquecimento”. Não sei a resposta, mas só sei que me senti rejeitado, negligenciado e furioso, prometendo a mim mesmo que só a contactaria com o estritamente necessário. 

A segunda-feira chegou, e mais conformado vou trabalhar, e enquanto estava absorvido com o meu trabalho ela entra no armazém a perguntar à minha colega se eu tinha vindo trabalhar, já que estava “escondido” no fundo do armazém a separar material para uma encomenda específica. Ela chama por mim, ao qual respondo em forma de chacota (já que me sentia magoado com ela) com um “uhuh”. Ela chega perto de mim, e eu fingindo máxima concentração na tarefa que estava a realizar, ela solta a seguinte pérola: “Coitado já estás transpirado”.  Confesso que aquilo não me caiu bem, mas, tive de engolir a seco aquelas palavras! Acompanho-a à zona administrativa, mas sem antes ela parar para perguntar ao meu colega se já estava melhor já que ele tinha sido transportado pelo INEM, para o hospital devido a fortes dores de costas, o que o levou a 3 dias de “férias” em casa, de repouso. Admito que aquela situação me deixou desconfortável (e com ciúmes), mas afastei-me para relativamente longe, enquanto ela conversava com o meu colega. Passa por mim, outra colega minha (que também enchia as minhas vistas e as minhas fantasias) ao qual a comprimento com um bom dia e pelo nome dela! No mesmo instante a “A”, deixa a conversa e vem ter comigo. Entramos os dois na sala de reuniões, onde iria decorrer a assinatura do contrato e de mais documentação. Ao entrar na sala pergunto se seria para fechar a porta, ao qual ela responde para deixar a porta aberta. Sentando-nos começo a assinar, e a rubricar, a “papelada” toda, e a “A” ao ver que não parava para ler, ela pergunta: “Não lês o contrato?”, ao qual respondo: “Eu confio em ti!”, ela retruca: “E se estiver escrito que eu fico com o teu dinheiro?”, eu acrescento: “Desde que não me deixes passar fome e pagares as minhas contas e da minha família..”, daí ela diz que a fazia rir, eu respondo que “há quem me chame palhaço”, ela defende-me ao dizer que eu era bem perspicaz, um elogio que massageou o meu ego (confesso), e acrescenta que gostava de mim e que por isso me tinha selecionado, mas embora estivesse vaidoso com aquelas palavras não lhe dei moral, por não responder e por “fazer ouvidos de mercador” enquanto assinava. Ela começou a questionar se estava a gostar de trabalhar lá, se alguém me incomodava, ao qual respondo que costumava ver umas patetices, mas que me fazia de cego, surdo e burro para nem me chatear, e que ao sair da fábrica ao fim do meu expediente, “desligava a ficha”. Confesso a ela que tive que impor-me a duas pessoas, às quais a “A” queria saber quem eram; mas em tom firme disse que não iria “coar mosquitos” por fazer queixas, face à insistência dela em saber quem eram essas pessoas. Ela para me mostrar que se preocupava comigo e o meu bem-estar dentro daquela empresa, ela diz que sempre que alguém me importunasse, que poderia me dirigir a ela, ou que comunicasse ao meu chefe de então. Senti que ela achava que não me conseguia me defender, ou que seria um incapaz. Mas nada comentei sobre o assunto para não estragar aquele momento.  

 A dado momento ficamos a olhar (olhos nos olhos) um para outro sem dizer uma única palavra (e que momento), e embora não me estivesse incomodado, pensei para comigo: “isto é tão errado”, e “se aparece alguém e nos vê assim?”, ou se “ela pensa que eu gosto dela?”, no fundo eu queria beijá-la ou que ela tomasse essa iniciativa, mas por momentos visualizei o meu currículo imprimido em cima da mesa, o que foi uma saída subtil (e não constrangedora) para aquela situação que queria eternizar, mas que naquele local não seria a postura profissional esperada de ambas as partes. Para disfarçar e por sorte minha lembrei que ainda não tinha entregado o meu certificado do curso de técnico de contabilidade, o que me deu a oportunidade de “sair” daquela situação de forma “profissional”, dizendo que ainda não tinha em minha o certificado em minha posse, o que ela responde que assim que pudesse entregasse.

Confesso que aquele dia ficou marcado para o resto do dia, com os seguintes pensamentos: “Será que o gostar dela no fundo é paixão por mim?”, “Aquele momento significou para ela o que significou para mim?”. Mas no fundo senti que me via como um pobre coitado, que no fundo tivesse pena de mim ou queria que o primeiro recrutamento dela (naquela empresa), fosse um sucesso profissional, receio bem que nunca o saberei. Embora o meu ego estivesse estratosférico, a minha parte racional pediu cautela e tive de me conter para não a bajular, mantendo sempre a postura perante ela. 

Até o começo das férias da “Rosar” pouco ou nada me lembro, de algum acontecimento marcante que envolvesse a “A”, comprimentos esporádicos e troca de olhares rápidos foram o "prato do dia" entre mim e ela.

 Ato II

A partir deste momento o relato poderá conter informações, que poderão estar um pouco fora de ordem cronológica.

Finalmente a “Rosar” entra de férias, e a “Ros” e eu ficamos a comandar as operações do armazém daquele ponto em diante. Os dias aqueciam de uma forma, que não bastava o trabalho ser duro, o calor abrasador e seco dificultava ainda mais o meu trabalho. Confesso que a partir deste ponto, o meu sentimento pela “A”, floresceu, e sem querer apercebi-me que sem me aperceber estava a deixar desenvolver no meu coração o que hoje sinto por ela até este ponto da escrita deste relato.

Houve uma situação que nunca me sai da memória e que guardo com muito carinho. Certo dia de calor estava eu a separar material, e enquanto estava eu em cima de um escadote, entra a “A” no armazém. De início, confesso, que foi um pouco bizarro, olhando eu para ela e ela a olhar para mim, e ambos sem dizer uma palavra, ficamos parados no tempo. Percebo que ela queria falar comigo, mas como não saía uma palavra da boca dela, e eu não tinha coragem de perguntar o que a trouxe lá (talvez para não parecer mal-educado), arregalo os olhos, o que foi a deixa para ela se meter comigo, onde ela arregala os dela em tom de brincadeira (acompanhado com um sorriso) e dizer o seguinte: “olha para ti com os olhos arregalados”. Aquilo desarmou-me, confesso!

A missão dela naquele momento era a entrega do contrato assinado, mas não sem antes de perguntar (por duas vezes) se estava tudo bem comigo, e ficarmos mais uma vez a trocar de olhares um com o outro. Bem, o meu pensamento foi o mesmo de quando fui assinar o contrato e ficamos “parados no tempo”: “E se aparece alguém e nos vê naquela situação?”, e “Se ela pensa que gosto dela?”. Na verdade, por momentos nem me preocupei, a minha vontade era agarrar aquela mulher que estava de vestido túnica (?) azul, que revelavam umas belas pernas morenas pura seda. Eu penso que por momentos ela esqueceu-se do objetivo da qual a tinha levado ao armazém, porque a preocupação dela era saber se eu estava bem, e se alguém se metesse comigo para a avisar. Era um misto de emoções, estava dividido entre a vontade de terminar o meu trabalho, apreciar e estar “eternamente” ao lado daquela mulher e o desconforto de sentir que ela sentia pena de mim. Finalmente, ela entrega-me o contrato e eu para disfarçar o que se estava a tornar um desconforto da minha parte, dou uma olhada rápida no contrato, e mais uma vez ela pergunta se está tudo bem, ao qual respondo positivamente, mas ela como não se acreditou reforça a ideia eu teria a ajuda dela se alguém se metesse comigo. Eu para disfarçar o meu desconforto apoio-me na escada móvel, e rio-me e digo: “Está bem “A””, e ela por sua vez bate-me de leve no braço. Ela para prolongar a conversa, diz ser necessário uma gabardine naquela divisão, pelo ar condicionado estar ligado no frio (devido ao calor abrasador), mas eu prontamente respondo eu fora daquela sala estava um forno. Mas a minha vontade era fazer referência ao facto de ela estar de túnica vestido e dizer que aquele “frio” não me estava a incomodar porque estava com calças vestidas, mas felizmente contive-me por não saber qual seria a reação dela. Mais uma vez ela faz o convite de recorrer a ela, desta vez com um tom baixo, sereno e doce. Fico sem reação, e provavelmente devo ter feito “caras e bocas”, para ela sair da sala e dizer que a fazia rir, o eu “rouba” uma gargalhada da “Ros”; confessando logo de seguida que me sentia incomodado da maneira que era tratado pela “A”, ou seja, um coitado, mas usando o termo retardado, pois a “A”, quando se dirigia a mim, parecia alguém quando fala com um bebé ou para um animal de estimação! Sentia-me acarinhado mas, queria ser tratado como uma pessoa normal e um potencial namorado/marido.

Em paralelo com esses dias comecei a investigar a vida de “A” nas redes sociais, tanto Facebook como no tiktok. O pouco que consegui averiguar, ela tem uma irmã (que meses mais tarde descobri ser mais nova 12 anos), piscina em casa (denotando algum poder aquisitivo) e que ela é bombeira voluntária no concelho chefe da freguesia da moradia dela. Mas um dos meus principais objetivos era descobrir se era casada, apenas comprometida ou se teria “intimidade” nas redes com alguém da empresa em que trabalhávamos. Descobri que o que ela fazia comigo (querer ser protetora e psicóloga de serviço) era um instinto natural dela. Naquele exato momento repeli qualquer alegria eu tinha sentido anteriormente, ser tratado como um “coitado”, pois não queria ser tratado mais como  tal….

Infelizmente, já tinha caído na armadilha, do meu coração traiçoeiro, não tinha coragem de passar por ela porque já era óbvio o meu sentimento pela aquela mulher, e também não tinha coragem de a desprezar, pelo motivo de ser anti-ético e de não fazer sentido, visto que ela não me tinha feito mal algum. Mas mesmo assim evitava cruzar-me com ela por medo de não saber o que falar e de, eventualmente, ver ela olhar e falar com outro; mas ao mesmo tempo necessitava de vê-la com os meus próprios olhos.

 Certo dia estava eu, na hora do intervalo, sentado em frente ao computador em frente a uma das janelas do armazém quando a vejo chegar com um elemento novo, que iria fazer parte da equipa do gabinete técnico, mas pensava e que viria laborar a par de mim no armazém, a falar alto e bem humorada e ele com um riso continuo a olhar para ela ao mesmo tempo que caminhava, mas naquele momento olhei para trás para a minha colega de trabalho, (1) para mostrar que estava atento ao que era dito por ela e (2) mostrar (aparente) indiferença pela “A”, embora os meus ciúmes estavam a um nível estratosférico. Mas a situação iria piorar quando o meu colega do armazém de expedição a interpela e ficam os três parados em frente à dita janela. Ele a falar com a “A” e o novo colega apenas observava o que era dito. Confesso que a partir daquele exato momento não iria olhar com bons olhos aquele “elemento”! Nas horas de almoço até à saída dele da empresa, nunca o consegui ter sossego com a presença dele. Pensava para mim: “porque com os outros ela era expansiva e comigo travava?” Provavelmente nunca o saberei, mas pouco ou nada poderia fazer, ou aliás, poderia, mas estes seriam os resultados possíveis:

(1)  Não falar nada e continuar tudo na mesma;

(2)  Deixar de falar com ela, inclusive de trabalho;

(3)  Tomar eu a iniciativa e ela tratar-me de maneira igual;

(4)  Tomar eu a iniciativa e ela desprezar-me;

(5)  Tomar a iniciativa e nos tornarmos mais próximos;

(6)  Declarar o meu amor e “espantar a caça”;

(7)  Declarar o meu amor e ela corresponder;

Decidi que uma vez por outra iria tomar a iniciativa de a cumprimentar. O resultado: por vezes, nem resposta obtinha! O que decidi fazer? Cumprimentar quando ela cumprimentasse, mas continuar a ser meigo e cordial com ela, enquanto ela se dirigisse a mim. Por vezes cruzávamo-nos, e só existia uma troca de olhares, e cumprimentos da parte dela, porque como mais tarde descobri, ela só cumprimentava quando queria, e na minha opinião, seja amor, amizade ou outro tipo de convívio tem de ser algo de mão de via dupla, não algo mendigado, nem uma competição de quem é o mais amado, respeitado ou que lidera certo tipo de relação. Embora só estejamos bem com outros se estivermos bem connosco próprios, o verdadeiro amor não busca o próprio interesse, mas coloca o interesse do(a) outro(a) acima do próprio interesse! O pesadelo oficialmente tinha começado e ficava cada vez mais claro qual era o meu sentimento por ela. No fundo eu só queria ter uma interação normal com ela, mas notei mais tarde (e para a infelicidade de ambos), que ela é do tipo que gosta ser o centro das atenções e adoração, talvez por validação de ego ou  por no passado ser motivo de chacota e desprezo, e agora como se destaca naquele ambiente (por ser atraente e vistosa e não haver quem chame a atenção como ela) aproveitar-se para "ditar as regras".  Mas tal não foi possível o que nos levou ao distanciamento um do outro e consequente sofrimento da minha parte. 

 Ato III

Volto a escrever o relato  quase três anos depois do começo do mesmo, mais conformado e com os sentimentos (quase) diluídos em uma espécie de vazio, com certa confusão da ordem cronológica dos factos! Com maior lucidez e menor sentimentalismo após uma época de "luto" sentimental. 

Este penúltimo ato focará até à minha não renovação de contrato da dita empresa. 

 Os 12 dias de férias da Rosar passaram a voar, onde ela não chega na data prevista, tendo assim ficado além da data prevista pelo gozo de férias (se a minha memória não me falha), até ao começo do mês de setembro, quando deveria ter voltado antes. Bem, mexericos à parte, essa época coincide com a entrada do que foi meu colega de armazém. 

Os dias como sempre eram uma correria eterna, junto com mau planeamento e falta de organização.  Mas a minha paixão pelo posto de trabalho, superava a frustração de ver outros a irem de férias, ordens sem lógica (mas ordem dada é ordem cumprida)!! Até que Rosar volta finalmente das férias e conheço o meu novo colega. Pensando eu que os meus dias seriam mais pacatos e o trabalho seria mais leve (que inocente fui). Cada dia que passava era uma tortura psicológica sentida. Não tinha coragem de enfrentar a A, mas a ausência por outro lado, torturava-me! Via-a, a conviver com um comercial (divorciado), falar muito com um chefe (que mais tarde foi rebaixado), o tal rapaz do gabinete técnico que na minha visão fazia de tudo para se cruzar com ela. Tudo me deixava inseguro e atormentado. Mas poucos momentos deixavam-me esperançoso, como olhares  discretos e meio persistentes, da parte dela. O facto dela ao entregar um caderno ao meu colega para anotações, e ter trazido outro para me entregar mas fazendo questão de tomar a iniciativa de me abordar e perguntar se queria um caderno (ao qual respondo positivamente). Ou até brincadeiras inocentes, todas essas migalhas de atenção alimentavam o meu já fragilizado ego. 

Mas comecei a notar algo, que fez desencadear uma sucessão de eventos estranhos.  

Os dias passavam, e não via a "A", na hora do almoço, e mal via-a no único intervalo dado pela empresa.  Entrei num estado de paranoia tal, só conseguia imaginá-la com outro. A minha obsessão por ela  estava a tomar uma proporção bizarra, e no fundo eu era o único que estava a ser prejudicado por tal sentimento!

(continuação) 

 


 

 

 

 

 

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